A Questão Racial no Brasil: Cultura Afro-Brasileira e Resistência

Tema: Contexto Raça e Etnia A Questão Racial No Brasil, negros conseguiram resistir criando uma cultura que mescla e condensa suas raízes africanas. Inúmeras práticas dessa cultura foram recriminadas durante os primeiros anos da república e até hoje sofrem ataques sistemáticos sendo acusadas de bruxaria e de provocar o mal. Contudo, um olhar aprofundado nos mostra exatamente o contrário: a cultura afro-brasileira é inclusiva e promove a busca da cura da alma. O candomblé é uma religião que nasceu na Bahia por volta da metade do século XIX. Nela os fiéis devem alimentar aos deuses por meio de sacrifícios. Para alimentá-los, os praticantes dessas religiões devem incorporar os deuses e promover as “festas” onde os banquetes são realizados. A presença dos deuses satisfeitos permite que aqueles que precisam deles sintam-se seguros, confiantes e curem as mazelas de suas almas. A saúde mental de praticantes de candomblé é geralmente melhorada e a formação de uma comunidade enfraquece o sentimento de solidão. A umbanda é outra religião afro-brasileira que nasceu no Rio de Janeiro por volta da década de 1920. Ela mistura o candomblé ao cristianismo e ao espiritismo kardecista. Nesse caso, não são deuses que vem ao encontro dos humanos, mas os espíritos de pessoas comuns. As sessões têm aconselhamentos, conversas sobre sexualidade, projetos de vida e temas ligados à vida e à morte. Ambas as religiões sobreviveram porque buscaram o sincretismo religioso. O candomblé parte de deidades encontradas na África, como é o caso de Osun, o rio que corta o território da Nigéria. Essa deidade é trazida ao Brasil e adaptada como sendo Oxum, a deusa das águas doces. Contudo, para que seu culto não fosse percebido, os praticantes do candomblé e da umbanda figuraram a deusa na imagem de Nossa Senhora dos Navegantes. Outras práticas que foram perseguidas em diferentes momentos da história brasileira foram a capoeira e o samba. A capoeira é uma mistura de dança, música e arte marcial que nasceu para combater capitães do mato que buscavam escravos. A tradição oral diz que a mistura com a dança foi outra técnica de camuflagem dessa prática cultural. Por outro lado, o samba nasce dessas mesmas celebrações que tinham tambores e danças de diferentes cantos da África, mas que se mesclou com ritmos dos salões musicais brancos. Há ainda muitos aspectos culturais advindos da África por serem descobertos, pois muito dessa cultura ficou viva nos chamados Quilombos. Quilombos são comunidades agrícolas de ex escravos que fugiram ou foram alforriados. Muitas dessas comunidades foram engolidas pelas grandes cidades e tornaram-se quilombos urbanos. Essas comunidades são reconhecidas como comunidades tradicionais porque elas têm outros mecanismos de socialização, outras instituições e vivem ao abrigo do estado brasileiro. Embora o estado lhes deva proteção, os quilombos são frequentemente ameaçados pela expansão territorial da agricultura em grande escala. SOCIOLOGIA | TEORIA | VOLUME 3 | QUESTÃO RACIAL 03 04 SOCIOLOGIA | TEORIA | VOLUME 3 | QUESTÃO RACIAL a vida do negro. Um exemplo disso é a ação policial. uma série de ações que atrasam e prejudicam Almeida retrata o que seria o racismo estrutural. Em uma análise do modo como as instituições brasileiras operam é possível perceber que há – Abdias do Nascimento, O genocídio do negro brasileiro faz com que o racismo permaneça latente em outras formas de práticas sociais. É aqui que encontramos o auxílio de Silvio de Almeida e de Djamila Ribeiro. racista reconhecer que é racista. Contudo, ele dissimulação foi tratada por Florestan Fernandes como a vergonha de ter preconceito. Essa vergonha não permite ao que recentemente vem aparecendo publicamente. A tradicional O racismo brasileiro é um fenômeno tradicionalmente dissimulado, mas Racismo Assim, do momento em temos palavras diferentes para tratar de fenômenos diferentes é importante retornar ao entendimento do que é racismo e o que é xenofobia. As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país. Até 1950, a feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país. Até 1950, a discriminação em empregos era uma prática corrente, sancionada pelas práticas sociais do país. Em geral, os anúncios de vagas de trabalho eram publicados com a explícita advertência: “não se aceitam pessoas de cor.” Mesmo após a Lei Afonso Arinos, de 1951, proibindo categoricamente a discriminação racial, tudo continuou na mesma. Depois da lei, os anúncios se tornaram mais sofisticados que antes, e passaram a requerer: “pessoas de boa aparência”. Basta substituir “pessoas de boa aparência” por “branco” para se obter a verdadeira significação do eufemismo sociologia da etnia afro-brasileira. Assim, percebemos que o termo raça termina por designar um fenótipo, mas não um pertencimento cultural; enquanto o termo etnia, designa um grupo cultural. Assim, note que nem tudo que veio da África segue sendo praticado pelas pessoas de ascendência africana. Por esse motivo é necessário criar um termo para falar de um grupo cultural. O termo que designa um grupo cultural é etnia e a importância de ter um termo independente está em que ele permite um entendimento independente. Por exemplo, por um lado, há pessoas de pele preta que não pertencem à etnia afro-brasileira; por outro lado, há pessoas brancas que participam de algumas práticas A polícia é uma instituição que deve zelar pela paz social, pela segurança e o bem-estar da população. Contudo, para realizar essa tarefa ela acaba por assimilar um olhar sobre a sociedade que reflete uma estrutura social problemática. Em uma sociedade onde a pobreza se concentra em uma linha de raça, a polícia termina por assimilar um papel de vigília de um grupo racial. As revistas, as ações, as desconfianças recaem sobretudo na população negra. Em função disso inúmeras histórias acabam se acumulando onde injustiças e erros da ação policial acabam se multiplicando somente em um grupo social. Outro exemplo importante diz respeito às políticas públicas. Educação e saúde são serviços que a constituição cidadã de 1988 tratam como universais. Ou seja, o estado tem de garantir acesso a esses serviços. Contudo, sabemos que no mapa social do Brasil, inúmeras pessoas não dependem desses serviços. Por isso, há aqueles que mais precisam do acesso via política de estado e aqueles que conseguem por via privada. Naturalmente, o grupo de pessoas pobres, que coincide com o grupo de pessoas majoritariamente negras, depende do acesso público. Contudo, quando o governo decide cortar seus investimentos nesses setores, quem mais sofre é quem mais precisa. Desse modo, a vida das pessoas brancas de classe média é menos afetada diante do fracasso do estado brasileiro. O racismo estrutural se observa nesse ponto, pois é aqui que vemos como os próprios poderes de estado, com suas instituições, terminam por determinar a vida do negro. É neste ponto que surge um debate fundamental para a promoção da vida do negro na sociedade brasileira: a possibilidade de ações afirmativas. Ações Afirmativas As ações afirmativas nascem nos EUA na busca por promover a equidade racial. Uma das premissas da sociedade liberal é que uma pessoa só pode ocupar uma posição social se ela se esforçou por merecê-la. A posição ocupada deve ter como único critério o mérito pessoal e fatores como cor de pele, passado, riqueza da família etc. são fatores que não podem ser considerados. Contudo, sabemos que em uma disputa livre, aquelas pessoas que recebem maior apoio tendem a chegar antes e com mais facilidade aos melhor cargos e posições dentro de uma sociedade. Foi por isso que se criou o sistema de ações afirmativas. A intenção é fazer com que pessoas tenham acesso a ferramentas para ocupar melhores posições sociais. A política de cotas no Brasil é um exemplo disso. Uma pessoa negra não concorre pelas mesmas vagas em uma universidade com pessoas brancas justamente porque ela tem inúmeros fatores que a colocam atrás da pessoa branca em uma disputa. O simples fato de ter um passado de avós escravos, o simples fato de não saber suas origens, de não ter pessoas que tiveram oportunidade de cursar a universidade ou o ensino médio exerce uma influência gigantesca na autoestima da pessoa. É difícil projetar um futuro e confiar nessa projeção se não vemos alguém em quem nos espelhar. Justamente por isso, as cotas são ações que afirmam e discriminam positivamente a população negra. As ações afirmativas diferem de políticas públicas porque estas são universais e não visam um grupo específico da população. Políticas públicas são pensadas para serem universais e representam um mecanismo mais básico de promoção da equidade. SOCIOLOGIA | TEORIA | VOLUME 3 | QUESTÃO RACIAL 05 Feminismo Negro Um dos movimentos sociais e intelectuais mais prolíficos das últimas décadas é o feminismo negro. De início, é fundamental reconhecer que a luta principal das mulheres negras está em algo tão fundamental que pode parecer surreal. Mulheres negras, diz Djamila Ribeiro, lutam pela notabilidade de sua dignidade. SOCIOLOGIA | TEORIA | VOLUME 3 | QUESTÃO RACIAL 06 Desde a infância a mulher negra tem sua confiança, inteligência e beleza menosprezada e desacreditada pela sociedade. Compreender a situação da mulher negra envolve compreender uma situação que se coloca além do horizonte da maioria das minorias representativas. Para a transcendência da voz da mulher negra é preciso chamar ao palco as ideias de Kimberlee Crenshaw. compreender Crenshaw é uma advogada negra que irá criar um conceito para defender sua cliente. Ela deve defender uma mulher que figura como bode expiatório de um problema em uma empresa. A empresa defende-se afirmando que não é racista porque há funcionários negros na equipe e não é sexista porque há mulheres na equipe. Crenshaw irá habilidosamente mostrar que a situação da mulher negra não pode ser compreendida analisando suas diversas identidades separadamente. É necessário pensar a mulher negra a partir da interseccionalidade da raça e do gênero para entender sua posição. Ela figura como alguém em relações de poder com homens brancos e negros, assim como com mulheres brancas. Assim, não é possível dissociar as formas de preconceito que ela sofre. Djamila irá mostrar que cada pessoa vive suas experiências sociais a partir de um lugar social. O lugar social é o lugar a partir do qual nossas identidades elaboram seus cruzamentos. Alguém pode ser negro, heterossexual, rico, americano. Outra pessoa pode ser mulher, branca, asiática e lésbica. Essas identidades sociais vão dando a nós lugares a partir dos quais observamos o mundo. Desses lugares sociais brotam lugares de fala. O lugar de fala não é uma autorização a falar – como erradamente se utiliza esse conceito na internet. O lugar de fala é o ponto de vista a partir do qual vivenciamos os fenômenos sociais. Como uma mulher branca de classe média vivencia o racismo? Ora, na posição de opressora ou de privilegiada, às vezes consciente, às vezes inconscientemente. Ela pode falar de racismo contra negros? Djamila diz que sim, e provavelmente irá falar coisas que são verdade sobre o que ela experimenta como privilegiada, outras coisas que ela fala irão fazer menos sentido porque penetram em campos que ela não tem experiência ou que ela refletiu pouco a respeito. Por fim, Djamila afirma que se o racismo tem alguma solução ou forma de atenuação, então não lhe parece que seria por meio do silêncio. É necessário falar e criar uma cultura de ouvir, pois sem isso o entendimento mútuo parece mais distante ainda.
Etapa/Série: 1º ano – Ensino Médio
Disciplina: Sociologia
Questões: 10

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Prova de Sociologia – 1º Ano do Ensino Médio

Planejamentos de Aula BNCC Infantil e Fundamental

Tema: Contexto Raça e Etnia – A Questão Racial No Brasil

Instruções: Leia atentamente cada afirmativa abaixo e marque V para Verdadeiro e F para Falso. Justifique suas respostas de acordo com os conceitos aprendidos sobre a questão racial no Brasil e a cultura afro-brasileira.

Questões

  1. O candomblé é uma religião exclusivamente originária da Bahia que não admite influências de outras tradições culturais.

    ( ) V ( ) F

  2. A umbanda surgiu no Brasil na década de 1920 e é uma mistura entre o candomblé, o cristianismo e o espiritismo kardecista.

    ( ) V ( ) F

  3. O samba é um estilo musical que se originou exclusivamente da cultura africana sem influências de outros ritmos.

    ( ) V ( ) F

  4. A saúde mental dos praticantes de candomblé é considerada melhorada pela formação de comunidades que promovem a convivência e a inclusão.

    ( ) V ( ) F

  5. Até 1950, a discriminação racial no Brasil não era sancionada por leis, e as práticas de emprego eram sempre inclusivas.

    ( ) V ( ) F

  6. Embora as políticas públicas de saúde e educação sejam universais, as pessoas negras muitas vezes têm mais dificuldade em acessá-las devido a fatores históricos e estruturais.

    ( ) V ( ) F

  7. Os quilombos são comunidades que surgiram como refúgios para ex-escravos e representam a resistência cultural afro-brasileira.

    ( ) V ( ) F

  8. A teoria da interseccionalidade, proposta por Kimberlé Crenshaw, considera que não se pode analisar a opressão de mulheres negras sem levar em conta raça e gênero como categorias interligadas.

    ( ) V ( ) F

  9. A cultura afro-brasileira é frequentemente vista como maligna e perigosa pela sociedade, sem qualquer contribuição positiva.

    ( ) V ( ) F

  10. Ações afirmativas, como as políticas de cotas, são uma forma de buscar reparação histórica e promover a equidade racial no Brasil.

    ( ) V ( ) F

Gabarito

  1. F – O candomblé, embora tenha raízes na Bahia, incorpora influências de diversas tradições culturais, destacando o sincretismo.
  2. V – A umbanda realmente é uma mistura de diversas tradições, destacando-se como uma religião inclusiva e diversa.
  3. F – O samba tem raízes africanas, mas também incorpora ritmos de outras culturas, especialmente da música popular brasileira.
  4. V – O candomblé proporciona um ambiente comunitário que promove a saúde mental de seus praticantes por meio do apoio social.
  5. F – Antes de 1950, a discriminação racial era prática comum e até incentivada em várias esferas, como evidenciado na publicidade de empregos.
  6. V – Apesar das políticas públicas serem universais, as desigualdades estruturais ainda dificultam o acesso, principalmente da população negra.
  7. V – Os quilombos representam a resistência afro-brasileira, funcionando como símbolo de luta e preservação cultural.
  8. V – A interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw é fundamental para compreender as múltiplas camadas de opressão enfrentadas por mulheres negras.
  9. F – A cultura afro-brasileira tem contribuído positivamente para a diversidade cultural do Brasil; a visão negativa é parte de um preconceito histórico.
  10. V – As ações afirmativas buscam corrigir desigualdades históricas e promover uma representação mais justa nos espaços sociais.

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